Os 25 anos da maior estrela de Santa Catarina

No aniversário da conquista da Copa do Brasil, o Diário de Notícias conta as histórias dos bastidores do grande título do nosso futebol



Thiago Oliveira e Tiago Monte
Criciúma

oite de domingo em Criciúma. No relógio, já era quase 20h30min. Minutos que custavam a passar. Para uma torcida que vestia amarelo, preto e branco, já não existiam mais unhas. Todas haviam sido roídas. O coração parecia querer sair pela boca. Aqueles 90 minutos aparentavam não ter fim. Até que o goleiro Sidmar deu um chutão para cima, o árbitro Cláudio Vinícius Cerdeira apitou o final do jogo e Santa Catarina conquistou o maior título de sua história. Fosse na televisão, no rádio ou dentro do estádio Heriberto Hülse, o sentimento era um só. O Criciúma era o campeão da Copa do Brasil.

Neste dia 2 de junho, o Criciúma comemora os 25 anos da conquista. Um título único. Para o clube e o Estado, que nunca mais viu o feito ser repetido. Uma história contada com detalhes por quem viveu o dia a dia nos gramados e também por quem estava do lado de fora, torcendo para que o sonho se tornasse realidade.

A FORMAÇÃO

A Copa do Brasil era o ponto máximo de uma trajetória que começou cinco anos antes, com a conquista do Campeonato Catarinense de 1986. Era a primeira taça desde a mudança de nome para Criciúma Esporte Clube e que se tornou icônica por interromper uma sequência de oito títulos seguidos do Joinville.

Naquele elenco estavam dois jogadores que seriam fundamentais para o futuro tricolor: os laterais Itá e Sarandi. “Nós começamos a época vencedora do Criciúma. Na época eram três ou quatro taças, mais o campeonato. Ganhamos de cabo a rabo. Depois iniciamos uma trajetória vencedora neste clube”, destaca Itá.

Mas se em 1986 ocorreu a reestruturação do Criciúma, em 1989 foi dada a largada para o grande título nacional. Naquele ano foi montada a espinha dorsal da conquista. Desembarcavam no Majestoso jogadores como Roberto Cavalo, Soares, Vilmar, Evandro, Adilson Gomes, Zé Roberto, Gelson e Jairo Lenzi (que já haviam trabalhado com o técnico Levir Culpi no Marcílio Dias) e o goleiro Alexandre, sonho antigo do presidente Moacir Fernandes. Além disso, o clube já contava com os meias Grizzo, que chegou em 1988, e Vanderlei, que já vestia o uniforme tricolor desde 1985.

Com o elenco formado, os resultados não demoraram a aparecer. Naquele mesmo ano, o Criciúma voltava a comemorar o título do Campeonato Catarinense, o que garantiu uma vaga na Copa do Brasil do ano seguinte. A competição era nova, estava apenas na segunda edição (a primeira, de 1989, teve o Grêmio como campeão).

Para vencer, foi preciso perder



De acordo com os jogadores, a Copa do Brasil de 1990 foi determinante para que o Criciúma levantasse a taça no ano seguinte. Mas por pouco que o Tigre já não fez história naquela ocasião. “Dói até hoje ter perdido este título”, revela Roberto Cavalo, volante do time na época e atual treinador da equipe.

Logo na primeira fase, o Criciúma tinha uma pedreira: o Internacional de Porto Alegre. Na partida de ida, disputada no estádio Beira Rio, triunfo dos gaúchos por 1 a 0. Na volta, porém, o Tricolor Carvoeiro não deu chances aos rivais e venceu por 2 a 0, com gols de Gelson e Grizzo.

Na sequência, o Tigre encara o Coritiba e surpreende o adversário na capital paranaense. Grizzo garante a vitória por 1 a 0 no Couto Pereira e um empate sem gols no Majestoso sela a classificação.

Nas quartas de final, o Criciúma tinha o São Paulo no caminho, time que já contava com nomes como Zetti, Cafu, Ronaldão, Antônio Carlos e Raí. No Morumbi, os paulistas fizeram 1 a 0, mas não era suficiente. Isso porque, duas semanas antes, Soares e Jairo Lenzi haviam garantido a vitória do Tigre por 2 a 0.

A disputa por um lugar na decisão seria contra o Goiás, de um jovem Túlio, que anos depois seria conhecido como Maravilha. No Heriberto Hülse, um gol de Jairo Lenzi aos 45 minutos do segundo tempo dava a vantagem ao Tigre. Só que no jogo da volta, realizado no estádio Serra Dourada, Luvanor marcou para a equipe esmeraldina.

A decisão se encaminhava para a disputa por pênaltis, mas um lance quase mudou tudo. Lance que segue vivo na memória dos atletas. “O Jairo Lenzi cruzou na linha de fundo. O Soares foi fazer o gol, mas o cara empurrou. Era pênalti. O Soares ainda cabeceou na trave. A bola foi na risca e depois na mão do goleiro. O juiz não deu o pênalti e nem o gol. O goleiro quebrou rápido. Fomos em cima do arbitro, mas ele mandou seguir”, conta Grizzo.

"Foi para os pênaltis. O primeiro que bateu: Vanderlei. Errou. Os caras fizeram. Bateu Wilsão e errou. Os caras fizeram. Era a hora do Roberto Cavalo. O goleiro dizia. ‘Vou pegar, vou pegar’. A trave diminui. Bati e caixão. Perdemos”. Roberto Cavalo, volante do Criciúma em 1991"

A derrota no Serra Dourada motivou. Na época, o Tigre já havia conquistado o bicampeonato estadual e a vaga para mais uma Copa do Brasil. “Fica aquela expectativa, aquela ideia de que alguma coisa nós deixamos de fazer para que não chegássemos ao título, mas haveria a recompensa. É um processo que nos fortaleceu nesse sentido e nos deu a convicção de que se fizéssemos algo a mais, seria bem provável que nós conseguiríamos, então foi basicamente esse o passo inicial, o norte da discussão”, conta Sarandi.

O ANO MAIS MARCANTE



Chega o ano mais marcante da história do clube. Em 1991, a CBF havia invertido o calendário. Desde janeiro, o Criciúma já disputava a Série B do Campeonato Brasileiro. Entre as rodadas, a entidade marcava os duelos pela Copa do Brasil. “Essa competição era uma coisa identificada conosco. Tínhamos essa ambição que permaneceu em todos os atletas aqui”, garante Sarandi. “Eles voltaram confiantes que seria o ano do Criciúma ganhar uma copa. Havia essa mentalidade coletiva. O time era o mesmo. Um time muito unido, composto por jogadores inteligentes, que sabiam pensar e estavam há muito tempo na casa”, completa o comentarista Milioli Neto.

Se em 1990, o Tigre precisou encarar o Internacional na primeira fase, desta vez, a missão parecia bem mais fácil. No caminho, o Ubiratan, campeão sul-matogrossense.

A estreia aconteceu na tarde no dia 21 de fevereiro. Apenas 299 pessoas foram ao estádio Douradão assistir ao embate. “Eu pensei que a gente ia ganhar fácil quando eu vi o campo lá. Nosso time não jogou nada. Ninguém no estádio. Dia de semana à tarde. Aqueles elefantes brancos que eles construíram lá na época do governo militar”, afirma Luiz Gonzaga Milioli, técnico tricolor na ocasião.

Com a bola rolando, o Ubiratan abriu o placar aos 37 minutos do primeiro tempo, com um gol do lateral-direito Wilson. E foi pouco. A equipe sul-matogrossense acumulou chances. Só não construiu uma goleada graças ao goleiro Alexandre. Até que aos 44 do segundo tempo, Grizzo, de gols tão importantes no ano anterior, garante o empate salvador.
O resultado do primeiro jogo afastou o torcedor da partida de volta. Tanto que pouco mais de 2 mil pessoas foram ao Majestoso. “Aqui não havia muita gente na arquibancada, pois era o início da competição, primeiro jogo dentro de casa, contra o Ubiratan, time sem expressão lá do Mato Grosso. Em compensação, o time fez um bom jogo, venceu com tranquilidade, fez 4 a 1 e a partir dali seguiu na sua trajetória até conquistar o titulo posteriormente”, relata o repórter esportivo Rogério Dimas.

Com o empate em 1 a 1 no jogo de Dourados, um empate sem gols garantiria a classificação tricolor. O adversário, porém, queria dar trabalho. Logo aos 2 minutos de jogo, o zagueiro Edson abriu o placar para o Ubiratan. Mas o time do Mato Grosso do Sul parou por aí. Evandro, Grizzo, Zé Roberto e Vanderlei marcaram durante os 90 minutos e confirmaram a vaga nas oitavas de final.

Um certo Luiz Felipe Scolari



Técnico assumiu o Tigre na partida diante do Atlético Mineiro. Foto: Divulgação

O primeiro jogo das oitavas de final iria marcar a estreia no clube de um certo treinador gaúcho chamado Luiz Felipe Scolari. Ainda não era o Felipão. Estava longe de ser o campeão mundial pela Seleção Brasileira. “Ele estava dando sopa depois que saiu do Coritiba”, lembra Grizzo.

A campanha pelo clube paranaense não dava confiança. Em três jogos, sofreu três derrotas. A última delas, para o Juventude, de Caxias do Sul (RS). Reza a lenda que após o jogo, Felipão já aproveitou a carona no ônibus do time gaúcho. Antes disso, o técnico tinha no currículo os títulos alagoano (pelo CSA, em 1982) e gaúcho (com o Grêmio, em 1987), além de conquistas da Copa do Kuwait pelo Qadsia, em 1989, e a Copa do Golfo de 1990, pela seleção do país árabe.

Já Gonzaga Milioli, que por pouco não havia levado o clube à elite nacional no ano anterior e registrava uma boa campanha na Série B do Campeonato Brasileiro, deixava o comando técnico do Criciúma. Funcionário do clube desde 1979, via na Copa do Brasil a chance de explodir na carreira, mas foi preterido, com a justificativa de não ter comando. Isso porque dez dias antes do jogo com o Atlético, os atletas não treinaram em uma manhã, como forma de protesto pelo atraso nas premiações por vitórias. “Falei que ia sair, não queria mais. Cheguei em casa chateado. Já tinha uma proposta para comandar o Araranguá”, afirma.
Pelo tempo no clube, Gonzaga tinha a confiança dos atletas e da diretoria. E foi necessária a intervenção de Felipão e até mesmo do presidente Moacir Fernandes para que ele permanecesse. “O seu Moacir me chamou, disse que era o melhor para mim. É e não é. Eu podia ser campeão da Copa do Brasil e ter decolado. Fiquei no júnior e ajudando o Luiz Felipe. Fizemos uma parceria”, revela.

A final antecipada

Se a estreia foi diante de um rival de pouca expressão, o chaveamento colocou o adversário mais temido logo nas oitavas de final. O Atlético Mineiro vinha de uma goleada por 11 a 0 sobre o Caiçara do Piauí, que segue como a maior da competição até hoje. “Foi o time mais difícil que nós enfrentamos na Copa do Brasil. Ganhamos a competição na segunda eliminação, que era contra o Atlético Mineiro. Foi uma final antecipada”, revela o meia Vanderlei.

Com jogadores como Carlos, Alfinete, Clebão, Éder Lopes e Gérson, o Atlético somava uma invencibilidade de sete partidas seguidas. Mas não resistiu ao Tigre. “Um jogo muito disputado, com a presença de um grande número de torcedores. Gol de cabeça do Vanderlei, depois de jogada pela esquerda do Jairo Lenzi. Ele cruzou e o Vanderlei apareceu de cabeça, fazendo o gol daquela vitória”, relata Rogério Dimas.

Maior artilheiro tricolor, Vanderlei garantiu a vitória no primeiro jogo contra o Galo. Foto: Thiago Oliveira/DN

Triunfo sobre uma das equipes mais fortes do Brasil. Motivo de festa? Não para Luiz Felipe Scolari. “Nós lembramos que ele falou que tínhamos que apanhar de cinta naquele jogo. Tinha que fazer dois, porque 1 a 0 era pouco contra o Atlético Mineiro. E eles já davam como certa a passagem deles lá”, conta Roberto Cavalo.

Os dias que separaram os dois jogos foram de rivalidade entre as equipes. Na televisão, a única pergunta era de quanto seria a vitória do Galo, já que a classificação era certa. Até mesmo o técnico adversário contava com isso. “O Jair Pereira era um grande treinador na época. E tinha vários jogadores de Seleção Brasileira. Nós ganhamos por 1 a 0 aqui e ele deu entrevista. Ele disse: ‘meu time é de Série A, cheio de jogadores de seleção. Chovendo. Quem prejudicou quem? A chuva nos prejudicou’. Era difícil aceitar perder para nós”, afirma Grizzo. “A imprensa classificava o tranquilamente o Atlético, porque o Criciúma não era páreo”, completa Cavalo.

Apesar do Galo contar com nomes consagrados no setor defensivo, a meta era parar a “máquina de fazer gols” do adversário. “O Atlético tinha um histórico de gol a cada 15 minutos no Independência. Goleava todo mundo. E tínhamos que pará-los. Uma tarefa extremamente difícil e eu diria que quase impossível. Uma das virtudes do Criciúma, além da condição física, era a consciência de reconhecer a superioridade dos adversários. Sabíamos que o Atlético era superior ao nosso time tecnicamente. Se fôssemos jogar contra o Atlético e não déssemos o nosso melhor, dificilmente íamos escapar do Independência de uma goleada. Nos preparamos, sabíamos que o jogo ia ser bastante difícil, que tínhamos que nos doar ao máximo dentro de campo. E foi o que aconteceu”, relembra Vanderlei.

Para o jogo decisivo no Independência, o Tigre não contou com o capitão Itá. Para compor a defesa, Felipão precisou improvisar o zagueiro Altair. “Nós tomamos sufoco naquele jogo. Jogamos com o Altair de lateral-esquerdo, marcando o atacante direito deles, o Sérgio Araújo. Meu Deus, que foguete. O ataque era Sérgio Araújo, Gerson e Edu Lima”, conta Cavalo.

O Atlético pressionou durante os 90 minutos, mas o Tigre já apresentava a solidez defensiva característica das equipes de Felipão. Tanto que o goleiro Marola, substituto de Alexandre, encerrou o confronto com o Galo sem sofrer gols. Mas se a classificação já era mais do que muitos torcedores esperavam, o gol foi a cereja do bolo.

No contra-ataque rápido, Vanderlei lançou Grizzo. O resto da jogada, o eterno camisa 10 lembra até hoje. “Eu sofri o pênalti. Estava ali com o Vanderlei, um metro dentro da área e o Clebão fez o pênalti. O Vanderlei tocou, eu estava batendo de chapa para fazer o gol. O Clebão pegou dentro da área. Eu ia fazer o gol e ele me derrubou. O juiz não deu o pênalti. Ele colocou a bola na risca da área. Eu beijei a bola e falei ‘Cavalo, pelo amor de Deus, faz o gol’”.

No outro lado estava Carlos, então goleiro da Seleção Brasileira. O camisa 1 do Galo nem deveria jogar, pois havia voltado de um compromisso vestindo a camisa verde e amarela. Mas devido à importância da partida, o técnico Jair Pereira o mandou para campo. O arqueiro armou a barreira da maneira como Cavalo gostava e o volante não perdoou. “Eu bati no canto dele. A bola pegou uma curva. Quando pensou em ir, foi na gaveta. Já era”, afirma o atual comandante do Tigre.
Na saída do Independência, o grupo ainda precisou enfrentar a hostilidade da torcida atleticana. O ônibus tricolor foi apedrejado e chegou a atingir Marola. A lembrança que fica para o grupo, porém, é da vitória na superação, que abriu o caminho para o título. “Nós tínhamos uma ideia já fixa de que tanto nós poderíamos vencer, quanto o Atlético poderia vencer, mas o nosso momento era tão importante, tão representativo, que nós tínhamos essa confiança, que dificilmente deixaríamos essa conquista escapar”, relata Sarandi.

A REVANCHE

Os triunfos sobre o Atlético Mineiro deram confiança. E quis o destino que o próximo adversário fosse aquele que impediu a equipe de chegar à final do ano anterior. “Mesmo que o Goiás não fosse um time de nome nacional, por ter eliminado o Criciúma, havia sim uma apreensão e eu me lembro de que os jogadores comentavam: ‘não podemos repetir o que aconteceu no ano passado diante deles’”, destaca Rogério Dimas.

Em campo, os personagens eram praticamente os mesmos de 1990, mas a expectativa era que o final fosse diferente. E após o primeiro jogo, a missão ficou ainda mais próxima. Felipão armou uma retranca instransponível: 0 a 0.

Na partida de volta, com o apoio de mais de 8 mil torcedores, o Criciúma precisava apenas de uma vitória simples para garantir um lugar entre as quatro melhores equipes da competição. Apenas um gol bastava. Mas quando o Goiás se deu conta, o Tigre já vencia por 3 a 0. “Nós tínhamos a convicção que nessa ocasião nós iríamos eliminar o Goiás. Tem um grande amigo que é o goleiro Eduardo. Depois do jogo, conversamos e ele contou que quando percebeu, já estava 3 a 0 para nós. Então ficou aquele sentimento de que nós deveríamos retribuir aquilo que o Goiás havia feito conosco e as coisas saíram como tínhamos imaginado”, relata Sarandi.

Pressionando desde o primeiro toque de bola, o Tigre, em atuação inspirada de Jairo Lenzi, precisou apenas de 15 minutos para decidir a classificação. Aos 24, o goleiro Alexandre deu o chutão para a frente. Soares raspou de cabeça e o ponta-esquerda apareceu por trás da zaga, como um foguete, para chutar com força e abrir o placar.

Aos 35 minutos, Jairo Lenzi avançou pela esquerda e rolou para trás, onde Gelson esperava. O volante soltou uma bomba de fora da área e saiu para comemorar. E quatro minutos depois, o camisa 11 voltou a aparecer. Ele cruzou na linha de fundo para Grizzo pegar de primeira e definir o marcador.

Mais do que garantir um lugar na semifinal, o Tigre havia dado o troco em um adversário que há quase um ano estava entalado na garganta. “Nós fizemos dois jogos muito bons no ano anterior contra o Goiás e não merecíamos ter perdido a vaga para eles. Cada jogo é uma historia diferente. Tínhamos nos preparado muito bem para esse confronto e deu no que deu. Ganhamos de 3 a 0 dentro de casa e passamos para a próxima fase, faltando apenas duas. E já dava esperança de titulo”, conta o capitão Itá.

Surpresa nas semifinais


Menos de um ano depois, o Criciúma estava de volta a uma semifinal de Copa do Brasil. No coração dos atletas, otimismo e medo caminhavam lado a lado. Faltavam apenas dois jogos para a decisão. Mas o trauma de 1990 ainda existia. “Houve uma certa preocupação por ser anterior a final. Gera-se uma expectativa, até porque gerou contra o próprio Goiás e fracassamos naquela ocasião. Então ficamos nessa de ‘oh gente, não dá. Não vamos deixar o nosso processo ser interrompido novamente. Precisamos fazer algo diferente para vencer’”, relembra Sarandi.

O chaveamento oferecia adversários como Atlético Paranaense, Sport, Vitória e Vasco da Gama. Mas no fim, quem garantiu a vaga foi um surpreendente Remo, que vinha de sete títulos estaduais consecutivos. “Enfrentamos um Remo que tinha acabado de eliminar o Vasco. Um super time. Uma torcida super empolgada. Uma parada muito dura também. Fomos hostilizados na chegada do estádio por uma torcida muito agressiva. Fora do estádio tinha uma agressividade muito grande. Uma rivalidade muito forte. Mas o time soube se comportar muito bem”, afirma Vanderlei.

Outro adversário era o gramado do estádio Baenão. “O campo do Serra Dourada era um tapete. Já esse era horrível. Para ganhar ali não era fácil. Por isso eles tinham sete títulos seguidos. Ali dentro era diferente. Os caras estavam acostumados”, relata Cavalo.

Assim como no primeiro jogo com o Goiás, o Criciúma armou uma barreira. Mas desta vez, não queria apenas o 0 a 0. O time jogava por uma bola para levar a vantagem para o Majestoso. E ela veio aos 43 minutos do segundo tempo. Jairo Lenzi fez o cruzamento na ponta esquerda, e o artilheiro Soares, que até então estava sumido naquela Copa do Brasil, subiu para marcar o gol da vitória.

Até então discreto na Copa do Brasil, Soares foi o herói das semifinais. Foto: Divulgação

Além do Remo e do gramado, o Criciúma tinha um terceiro desafio em Belém: a torcida adversária. Antes do jogo, dezenas de pessoas cercaram o ônibus tricolor e por pouco não viraram o veículo. Durante os 90 minutos, a marcação também foi implacável. “Sufoco. Naquele tempo, na cerca os caras jogavam água, outras coisas. E naquele tempo podia ter bebida. Ia bater lateral, escanteio, e os caras estavam jogando tudo. Mas nunca tivemos medo. Pelo contrário. Nós crescíamos. Aí que nós gostávamos”, se orgulha Roberto Cavalo.

A vitória fora de casa acendeu a chama da esperança tricolor. Era só fazer o dever de casa, que garantia a vaga na final. “Ali o torcedor se aliviou, a imprensa também pegou junto. Tinha bandeiraço, movimentando o jogo para a promoção daquele jogo. Deu resultado”, conta Dimas.

O clima em Criciúma era de decisão. O Heriberto Hülse estava praticamente lotado, com 19.128 torcedores. Mais do que o suficiente para assustar o Remo. Tanto que o primeiro gol do jogo foi contra. Aos 35 minutos de jogo, Alexandre deu um chutão que foi até a entrada da área adversaria. O zagueiro Chico Monte Alegre subiu para cortar, mas atirou contra a própria meta. A bola ainda encobriu o goleiro Samuel antes de entrar no ângulo. Um legítimo golaço.

Precisando da virada, o técnico Paulinho de Almeida reforçou o setor ofensivo, mas no Majestoso, era preciso mais do que isso para assustar o Tigre, que no fim, ainda marcou mais um. Quase que em um replay do primeiro jogo, Jairo Lenzi fez a jogada pela esquerda e cruzou para Soares. O camisa 9, desta vez, bateu com o pé direito e definiu mais uma vitória. “Nós atropelamos. Em casa, o Criciúma fez resultados muito importantes. Resultados fortes. A torcida embalou. O time entendeu. E o time se transformava. Era um time mágico quando jogava dentro de casa. A torcida veio junto. O time jogou tudo, até mais do que podia. Contra o Remo foi 2 a 0 e poderia ter sido mais”, explica Vanderlei.

Missão Porto Alegre



Se o sonho da final havia sido interrompido em 1990, desta vez, ele estava mais vivo do que nunca. “Dava a impressão que muitos dos jogadores ainda estavam sonhando acordados. Os que a gente conversava, Soares, Jairo Lenzi, Gelson, todos eufóricos, mas também cientes que iam pegar um adversário bastante complicado. Havia sim, no íntimo, o astral que a gente observava, que o clima estava propício. Tudo compactuava que com o entrosamento, a união do grupo e o apoio da torcida, pudesse chegar mais a frente, como aconteceu”, destaca Rogério Dimas.

O Criciúma estava na final da Copa do Brasil, diante de um Grêmio que havia sido rebaixado no Campeonato Brasileiro, mas que também estava invicto no torneio e havia eliminado Corinthians e Coritiba para chegar à decisão.

Felipão conhecia bem o Grêmio. Torcedor do clube gaúcho, ele já havia treinado a equipe, com conquista de título, inclusive. “Nós tínhamos uma ideia do que iríamos enfrentar, até porque a maior parte dos atletas que fazia parte do Criciúma são do Rio Grande do Sul. O próprio treinador também. Era um confronto mais regionalizado. E aí sim houve uma preparação maior neste sentido”, relata Sarandi.

Gaúcho da cidade que lhe dá o apelido, Sarandi conhecia bem o adversário da final. Foto: Thiago Oliveira/DN

O primeiro jogo da decisão seria realizado em Porto Alegre, no dia 30 de maio, Corpus Christi. Milhares de criciumenses aproveitaram o feriado e invadiram a capital gaúcha para dar forças ao Tigre. A Copa era do Brasil, mas parecia do Mundo, tamanha a empolgação da torcida carvoeira no percurso de 280 quilômetros. “Na BR-101 e depois na Freeway, passávamos por muita gente com bandeiras, torcedor agitando, a gente passava e eles buzinavam. Havia um otimismo e uma mobilização muito grande. Eu não me lembro de em outras partidas, ter visto tanto torcedor do Criciúma quando a gente viu em Porto Alegre”, afirma Dimas.

Quando pisou no gramado do Olímpico, o grupo criciumense se surpreendeu com o apoio recebido das arquibancadas. O torcedor, que no Heriberto Hülse era o 12º jogador, repetia o carinho, mas desta vez, longe de casa. Aproximadamente cinco mil carvoeiros estavam no estádio. Até que em seguida, uma confusão motivou ainda mais o elenco.
Nas arquibancadas do Olímpico, as duas torcidas eram separadas apenas por uma corda. E as provocações que começaram muito antes do jogo não demoraram muito até se transformarem em pancadaria.

“Os caras atropelaram a nossa torcida no começo. Daqui a pouco a nossa torcida voltou e a torcida do Grêmio correu. Eles foram para cima. Tinha gente com sangue, machucado, pauleira. E nós assistindo aquilo. Soco a soco. E eu falei no intervalo. ‘Se a nossa torcida com 10 mil atropelou a outra com 50 mil, não vai ser 11 contra 11 que vamos baixar a guarda. Pau nos caras também’”
Roberto Cavalo, volante do Criciúma em 1991

Quando o jogo teve início, o Grêmio tratou de mostrar quem mandava. Com os avanços do ponta-direita Maurício, destaque dos gaúchos, o time se jogou ao ataque e chegou a acertar uma bola no travessão do goleiro Alexandre. O gol dos donos da casa parecia apenas uma questão de tempo, mas um herói improvável mudou a história.

Jairo Lenzi cobrou o escanteio pela direita. O zagueiro Vilmar se antecipou aos defensores gremistas e saltou mais que qualquer um antes de cabecear com força, sem dar nenhuma chance ao goleiro Gomes. Um gol que já tem 25 anos, mas que o autor lembra como se fosse hoje. E que por pouco não saiu.

Gaúcho da cidade que lhe dá o apelido, Sarandi conhecia bem o adversário da final

Foto: Thiago Oliveira/DN

O gol animou o Criciúma, que poderia ter ampliado ainda no primeiro tempo, com Grizzo, que tocou de cabeça após o levantamento de Sarandi na cobrança de falta. Na etapa final, porém, o Tigre se fechou e o Grêmio cresceu. Sempre com Maurício, o time gaúcho assustava a defesa carvoeira. “Naquele lado era o Gelson marcando, o Itá marcando, e o bicho era danado. O homem corria demais. Era muito rápido”, destaca Cavalo. Em uma destas arrancadas, ele cruzou e Caio só não fez o gol, porque Alexandre salvou.

O tempo passava e parecia que o Criciúma sairia do Olímpico com a vitória. Eis que aos 37 minutos, ocorre o lance polêmico do jogo. Em jogada rápida pelo lado direito, o zagueiro Altair e o atacante Caio caem na área e o árbitro marca pênalti para o Grêmio. Decisão contestada até hoje. “No meu entender, não foi pênalti”, diz Itá. “Até hoje eu tenho dúvida se foi”, completa Cavalo.

Altair havia conquistado a posição no time durante a competição. O zagueiro tubaronense barrou Evandro, até então considerado intocável. Passados 25 anos, ele não reclama da decisão do árbitro. “O Caio cavou e foi esperto. Ele deu o tapa na frente, sentiu que não ia alcançar, segurou a minha camisa e caiu. Final de Copa do Brasil, em casa, perdendo para um time que ninguém acreditava, eu faria a mesma coisa. Na hora, o Itá foi reclamar com o juiz, mas eu pedi para ele não ir. Nunca suportei um fardo que não pudesse carregar. No Heriberto Hülse eu sabia que seria diferente. Se precisasse dar cabeçada e trave, eu iria. A gente queria muito aquele caneco”, revela o camisa 4.

O dia inesquecível

Jogo estava marcado para às 18h30min, mas torcida compareceu muito antes

Foto: Divulgação

Um jogo. Era só o que faltava para que o Criciúma levantasse a taça da Copa do Brasil. A partida seria diante da torcida, o que era quase uma garantia, afinal, estava há 15 meses sem perder no Majestoso. A última derrota havia sido em março de 1990: 2 a 1 para a Chapecoense. Neste tempo, superou equipes tradicionais como Internacional, São Paulo e Atlético Mineiro. “Mesmo com os pés no chão, havia uma euforia muito grande. Tanto do grupo de jogadores, quanto da torcida. Nas entrevistas nos dias que antecediam, já existia uma convicção de conquista. Muito respeito ao Grêmio, mas aqui dentro, o Criciúma era um time praticamente invencível”, afirma Rogério Dimas.

Apenas três dias separaram os dois jogos, mas quanto mais a partida se aproximava, mais o tempo demorava a passar. O domingo criciumense, sempre tranquilo, foi substituído pela euforia e pelo nervosismo na grande decisão. Os poucos prédios da época pareciam cobertos, pela quantidade de bandeiras nas sacadas. Os estabelecimentos abertos, como postos de gasolina, estavam ornamentados com as cores do Criciúma. Nas ruas, carreatas atravessavam a cidade desde as primeiras horas. E às 18h30min, todas as atenções estavam no jogo dos tricolores.

Os 11 jogadores do Criciúma eram os mesmos da primeira partida. Aquela escalação que o torcedor lembra até hoje. Alexandre; Sarandi, Vilmar, Altair e Itá; Roberto Cavalo, Gelson e Grizzo; Zé Roberto, Jairo Lenzi e Soares. O Grêmio, porém, estava diferente. Sidmar assumia a camisa 1 no lugar de Gomes, apontado pelos gaúchos como o responsável pelo gol de Vilmar no primeiro jogo. Acostumada com um futebol bonito no Majestoso, a torcida se deparou um jogo feio. As defesas se destacavam. O medo de sofrer gol parecia maior que o desejo de marcar. “No Olímpico foi um bom jogo. Aqui não foi. Tanto nosso quanto do Grêmio. O Grêmio precisava de um gol para levantar o caneco. E nós precisávamos não tomar gol. Foi um jogo duro, muito pegado”, lembra Itá.

Desde o primeiro jogo, Gelson e Maurício protagonizavam embates em todas as faixas do campo. Batalha que teve fim no início do segundo tempo, quando o árbitro expulsou os dois após um princípio de confusão. “Foi muito difícil. Se tivéssemos perdido, seria traumático. Faltava muito tempo pela frente. Foram 30 minutos muito difíceis. Parecia que o tempo não passava. Eu acho que talvez não merecesse ser expulso, pois foi o Maurício que me agrediu. Foram minutos muito difíceis. 30 minutos é muita coisa, principalmente em uma final. Mas quem perdeu mais foi o Grêmio, já que o Maurício era o principal homem de ataque deles e o Felipão fez a recomposição do setor”, explica Gelson.


O dia inesquecível

Torcedor Clóvis Zampoli lembra do jogo, que ele classifica como “o mais comprido da vida”

Foto: Angelica Brunatto/DN

O meia carvoeiro tinha razão. Sem Maurício, o Grêmio perdeu força. O Tigre seguiu cauteloso, no campo defensivo, mas teve duas oportunidades de definir o confronto, ambas com Roberto Cavalo, em cobranças de falta. O tempo, porém, teimava em não passar. “Foi o jogo mais comprido que eu vi em toda a minha vida”, lembra o torcedor Clóvis Zampoli.

Até que Sidmar deu aquele chutão para cima e Cláudio Vinícius Cerdeira confirmou o fim da partida. Fim da Copa do Brasil. E início da maior festa que Criciúma já viu. “Você chora, você ri, você extravasa tudo o que tu guardou para ti dentro de uma competição de dez jogos”, afirma Itá. “Fomos para o vestiário e trocamos camisas para receber a taça. Lá dentro choradeira. E estava toda a diretoria. A festa não parava. Foi uma loucura. Víamos o torcedor chorando porque ele não acreditava também”, completa Cavalo.



Foram poucos segundos entre o último apito do árbitro e a invasão do campo. Rapidamente, o gramado do Heriberto Hülse se transformou em um salão de festas. “Era torcedor querendo pegar calção do torcedor. Jairo Lenzi saiu só de cueca. Saiu correndo para o vestiário e só voltou depois para receber a taca com os demais jogadores. Uma festa incrível como nunca vista no Heriberto Hülse”, explica Dimas.

Aos olhos da torcida, a festa era ainda maior. “Eu lembro como se fosse agora. Tinha apenas um alambrado, e os torcedores pendurados. Assim que o juiz apitou, não se via mais gramado. A torcida invadiu. Pegou jogadores. Tirou a roupa. Tinha jogador só de cueca. Hoje eles inverteram. Vão dar troféu no outro lado por causa das televisões. Antes era virado para cá e a gente pôde ver de frente aqui”, lembra o advogado Marcel Lodetti, então uma criança. “Teve torcedor que foi ajoelhado da trave do Colegião até o Colombo Salles. Pessoal arrancando as redes da goleira, pedaço de grama, meia de jogador”, destaca Zampoli. “Deve ter meia de jogador na casa de alguém ai”, completa Lodetti.

Além do título, Sarandi saiu do Majestoso com outro presente. Assim que o goleiro Sidmar deu o chutão que encerrou o jogo, a bola caiu bem na direção do lateral, que não pensou duas vezes. “Eu guardei essa bola comigo autografada por todos os atletas do Criciúma por uns 10 anos, depois meu filho começou a jogar bola na praia e perdi a bola”, lamenta o eterno camisa 2.

Sarandi, aliás, conta uma das histórias mais inacreditáveis da noite de festa. Quase um roteiro de filme. E que assim como no cinema, teve final feliz.

“Saímos do estádio todos nós, a famílias, as esposas, os filhos. Nós fomos na cidade, desfilamos na Avenida Centenário com todos os torcedores. E depois ficamos até a madrugada, festejando com todos os torcedores. Depois, não sei como, apareceu a taça em um bar da cidade. No final da noite me entregaram a taca e vim entregar no Criciúma no outro dia”.
Sarandi, lateral-direito do Criciúma em 1991

Na noite do dia 02 de junho de 1991, encerrava a mais incrível jornada do Criciúma Esporte Clube. Uma trajetória de dez jogos. Seis vitórias. Quatro empates. Em quase três décadas de Copa do Brasil, apenas seis clubes levantaram a taça sem perder nenhuma vez, e o Criciúma faz parte deste grupo. Ali nasceu a principal estrela do clube. Motivo de orgulho para toda uma região. “Quanto mais o tempo passa, mais valorizado fica o nosso título da Copa do Brasil”, diz Vanderlei

Um elenco vencedor

Tão marcante quanto o título, foi o elenco tricolor. Raro é o torcedor que não saiba a escalação da época. “Era um time de conjunto, não tinha uma estrela. Eram jogadores bons em todas as posições, mas não tinha nenhum super craque”, relembra o torcedor Itaboraí Melo. “O nosso plantel era muito bom. Não tinha vaidade. Não tinha um melhor do que o outro. O Jairo Lenzi não era o melhor, porém, o mais rápido. O Soares era o artilheiro, porém, não era o melhor. O Grizzo era um cara inteligente para jogar, como eu, como o Gelson. Todos tinham o mesmo pensamento de ajudar. E isso fez um grupo forte”, garante Cavalo.

Grande parte das equipes treinadas por Felipão ganham o apelido de “Família Scolari”. Naquele caso era uma família mesmo. E antes mesmo da chegada do treinador. Eram parceiros dentro e fora de campo. Uma convivência de pelo menos quatro anos, que fez a diferença. “Desenvolveu-se um projeto com aquela finalidade de que deveríamos ficar um longo tempo juntos. Quando o time tem continuidade, os resultados aparecem”, destaca Sarandi.

Se na bola o Tigre não tinha nenhum craque, em outro setor, o clube se destacou: a preparação física. “Essa não foi uma coisa pensada, mas os jogadores tinham uma condição física muito acima da média. Tanto que em jogos de altitude, por exemplo, na Bolívia, nós não sentíamos a altitude e vencemos lá mesmo”, conta Levir Culpi, responsável pela montagem do elenco. “Os caras entravam em campo e parecia que cada um era dois”, completa o torcedor Itaboraí Melo.

Felipão, Cavalo e o preparador físico Humberto Ferreira exibem a taça no Majestoso Foto: Divulgação
Durante a Copa do Brasil, o Criciúma utilizou 20 jogadores. Além dos 11 que saíram na foto do título, tinham ídolos como Vanderlei e Evandro. Os dois começaram a competição como titulares, mas perderam a posição para Zé Roberto e Altair, respectivamente.

O banco também contava com reservas que davam conta do recado, como Everaldo e Jairo Santos (que começou como titular enquanto Sarandi recuperava-se de lesão). Emerson Almeida, que faria o gol do tricampeonato estadual, meses depois, não foi escalado para nenhum dos jogos da Copa do Brasil, mas aproveitou o aprendizado. “O próprio júnior jogava como os profissionais. Escanteio no primeiro pau, dava uma casquinha. Jogava com o mesmo método do profissional. E ganhou tudo também. E eles eram meus ídolos. Tu que é novo, ver o teu clube, que tu treina, ser campeão da Copa do Brasil é uma sensação maravilhosa”, afirma.

Assim que o time se desmanchou, a partir de 1992, poucos atletas conseguiram grandes êxitos. “Quem saiu do Criciúma e foi para um grande clube? Os jogadores de mais qualidade eram o Grizzo, depois o Zé Roberto que chegou depois e jogou no Vitória, Bahia. O Jairo se destacou um pouco, mas não era um grande jogador, era muito aplicado. Era um time de muita força coletiva”, destaca Gonzaga Milioli.

Técnico controverso

Quando se pensa em Criciúma e Copa do Brasil, um dos nomes que vem à mente é Luiz Felipe Scolari. Foi a partir daquele título que o treinador iniciou uma trajetória que o levou a conquistar duas Libertadores e a Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. Mas para quem viveu o dia a dia do clube, o nome do gaúcho não é unanimidade.

Primeiro pelo retrospecto. Se Felipão foi muito bem na Copa do Brasil, no Campeonato Brasileiro o desempenho foi bastante diferente. Em sete jogos, ele somou apenas duas vitórias, e perdeu cinco vezes. O que tirou a paciência do presidente Moacir Fernandes.

Após uma derrota para o Juventude, em Caxias do Sul, que tirou as chances do Tigre na competição, o mandatário disse que era para ele ficar lá, voltando para Criciúma apenas para acertar a saída. “Na época não era igual hoje, com o calendário certinho. Quando ele vinha acertar, o time tinha recebido um telegrama, dizendo que teria jogo com o Goiás pela Copa do Brasil. E para não precisar trocar, permaneceu. E ali ele alavancou”, conta Gonzaga.

A nova chance “motivou” o treinador, que pareceu mais disposto a entregar o máximo pelas vitórias. “Havia um desgaste com o Felipão. Íamos mal na competição, divergências. Mas as primeiras vitórias sanaram estas divergências. Isso foi muito importante para que o Luiz Felipe chegasse onde chegou”, revela o volante Gelson, que voltou a trabalhar com o técnico no Grêmio, onde venceu a Libertadores e chegou a bater um dos pênaltis no Mundial de Clubes, contra o Ajax.

A forma de treinar também era diferente. Na preparação para o jogo com o Remo, a equipe não treinou no Heriberto Hülse. Subiu até o Caravaggio para realizar uma atividade que simulava as condições do gramado do Baenão.

Felipão também realizou mudanças na equipe. Ousadas, inclusive, pois mexia em peças consideradas “intocáveis” no elenco: Evandro e Vanderlei. O primeiro perdeu com moral com o treinador justamente após a derrota para o Juventude, aquela que o “demitiu”. Altair aproveitou e não saiu mais. Já no setor ofensivo, Zé Roberto levou a vaga, modificando a estrutura tática do time. “O Zé Roberto entrou em uma função de meia que circulava, mas um quarto homem quando chegava na frente. Era um motorzinho. Corria muito, era raçudo e ajudava na hora da conclusão na frente. Acho que foi um dedo do Felipão a partir dali com aqueles mudanças do time”, explica Dimas.

A trajetória de Felipão no comando do Criciúma foi curta. Teve fim no dia 11 de junho, em um amistoso diante do Internacional. Vitória por 3 a 1 no Heriberto Hülse. Apenas 16 jogos. Menos de três meses. Mas o suficiente para colocar o treinador no hall dos maiores nomes da história do clube.

O 12º segundo jogador

Fundamental em qualquer clube de futebol, a torcida do Criciúma fez a diferença. Compareceu em peso nos momentos que o time mais precisou, e atuou como um 12º jogador na conquista da Copa do Brasil. “Nos jogos que antecederam a decisão, no último, por exemplo, eu madruguei vários dias confeccionando faixas e bandeiras. E lembro que eu e a minha equipe, fizemos 2,5 mil bandeirolas. Passamos mais três dias enfeitando toda a Avenida Centenário. Eu comecei lá na entrada norte, na Grande Próspera e fomos até o Pinheirinho. Não chegamos ao último poste de iluminação porque faltou bandeira”, revela Clóvis Zampoli, que na época participava da organizada Força Tricolor.

Sócio patrimonial desde 1980, Zampoli é um dos torcedores que segue acompanhando o clube, independente de divisão. Assim como Ivone Camilo Fernandes, ou simplesmente, Dona Ivone. Figura ilustre no Heriberto Hülse, a moradora do bairro São Cristovão não perde um jogo do Criciúma desde 1978. Já são 38 anos de paixão pelo clube. “Quando o meu irmão morreu, eu não fui na missa de 7º dia, porque tinha jogo do Tigre. E uma vez eu fugi do hospital. O médico disse que eu não podia sair, mas assim que ele virou as costas, eu fugi e fui para o campo”, conta, sempre bem humorada.

Na época da Copa do Brasil, Dona Ivone ia em vários jogos longe do Heriberto Hülse, como em São Paulo, Coritiba e Porto Alegre. Mas não foi na partida de ida da final, na capital gaúcha. Parecia saber que naquele dia, várias pessoas voltariam feridas após o conflito entre torcedores. Precisou assistir pela televisão. A festa foi em casa.

Mas no domingo, ela já estava no Majestoso hora antes do jogo. “Foi uma felicidade. Fizeram até carreata, me colocaram em cima de um carro. Foi até de madrugada. Na época eu ia com o meu esposo, ele não perdia um jogo comigo”, relata.

A própria relação entre atletas e torcida era diferente. Mais próxima. “Os jogadores não eram seres intocáveis como é hoje. Hoje jogador de futebol é um ser intocável. E naquela época nos vínhamos no treino e eram seres tocáveis, o portão ficava aberto, tinha o contato com o jogador. E isso fez muita diferença na época para marcar o time além da vitória”, conta o torcedor Marcel Lodetti.
Torcedora símbolo do Criciúma, Dona Ivone não perde um jogo há 38 anos Suelen Grimes/DN
O carinho é compartilhado pelos próprios atletas. “Existia essa aproximação dos atletas com a comunidade, da comunidade com os torcedores. Então existia uma democracia mais ampla neste sentido. Hoje as coisas são mais fechadas, você não tem acesso a nada. Mas fico com aquela gratidão de poder receber aquele carinho do torcedor, a manifestação da arquibancada e após aquelas conquistas, poder desfrutar com eles deste mesmo sentimento”, relembra Sarandi.

Apoio da patrocinadora

Ex-prefeito conta que o futebol foi a propaganda mais barata que Criciúma fez para divulgar a cidade
Foto:Thiago Oliveira/DN
As camisas da época, além do escudo tradicional, tinham um elemento que durou todo o período de ouro: o patrocínio da Eliane Revestimentos Cerâmicos. Tanto que a história da empresa chegou a se confundir com o do clube em vários momentos.

“O Jarvis Gaidzinski foi presidente do clube nos anos 60, anos 70. A partir dali já começou esse vínculo. E depois, nos anos 80, participação como patrocinador no sentido de colaborar, gerar renda, culminando com aquele período muito bom que deixa saudade do final dos anos 80, inicio dos anos 90 com a Copa do Brasil. É claro que naquele momento, a Eliane, no sentido de colaboração, de ajudar o clube, já se percebe o crescimento do Criciúma no cenário nacional, também envolveu os profissionais da empresa no dia a dia do clube, e claro, divulgando o Criciúma, e em paralelo divulgando a marca Eliane. Isso ficou bem marcante, de um retorno muito bom para a empresa e para a família como um todo”, destaca o gerente administrativo da empresa e também presidente do Conselho Deliberativo do Criciúma, Renato Gaidzinski Bastos.

Com o título, o Tigre passou a ser conhecido nacionalmente, e a Eliane ganhou destaque. “Pela paixão nacional que é o futebol, acredito que se possa considerar como uma grande ação de marketing de sucesso. Das mais marcantes. Teve uma penetração muito grande em todas as camadas. Não só no meio cerâmico, construção civil. Mas acabou divulgando efetivamente a marca para o Brasil inteiro, sem distinção nenhuma de público ou profissionais no setor”, completa Bastos.

A cidade do Tigre

Ex-prefeito conta que o futebol foi a propaganda mais barata que Criciúma fez para divulgar a cidade
Foto: Angelica Brunatto/DN
Até os anos 90, Criciúma era conhecida pela extração de carvão. Mas a partir do título da Copa do Brasil, se tornou a cidade do Tigre. Ideia que já existia há mais de 10 anos, quando o então prefeito Altair Guidi realizou a ampliação do estádio Heriberto Hülse. “Quando entramos no caminho para polarizar o Sul, o futebol foi o que mais divulgou Criciúma para o Brasil. Talvez tenha sido a propaganda mais barata que Criciúma fez dela mesmo. Todo mundo conhece a cidade por causa do futebol”, destaca o político.

O próprio escudo do Criciúma é o símbolo utilizado por Guidi durante a primeira gestão, entre os anos de 1977 e 1983. “Pode ver que todas as obras feitas na época têm este símbolo. Acho que quando os outros copiam, é porque é coisa boa, e temos que louvar”, brinca. “Eu só não gostei da cor na época. Queria verde e vermelho. Mas insistiram pelo ouro e carvão, e ficou uma cor muito bonita”, completa.

Guidi ainda recebeu o convite para comandar o Criciúma. Não precisou nem pensar duas vezes. “O presidente era o Angeloni e ele me convidou para assumir. Falei que futebol é mais difícil que política e ele concordou. Não era para mim”.

Sonho em reviver a história

Esperança da torcida é que a cena volte a se repetir
Foto: Suelen Grimes/DN
A cada ano, com o início de uma nova Copa do Brasil, o torcedor volta a sonhar. Todos esperam que a história de 1991 possa se repetir.

Lodetti é um dos otimistas. “O Criciúma vem em uma evolução. O profissionalismo vem se instalando. Falta bastante coisa para chegar num ponto ideal, mas é uma construção. O clube passou por toda uma reestruturação. Não tem uma mágica. É uma fórmula que deu certo. Se pegar o time de 91, ele começou a ser montado em 86. A cada ano trocou poucas peças. Em 91 tinha uma base de seis, sete anos. Hoje o Criciúma tem condições de fazer isso. Hoje temos uma base com Ezequiel, Marlon, Barreto, Dodi e Gustavo. É uma base que não pode ser desmanchada. Se conseguir manter essa base quatro, cinco anos, e trocar situações pontuais, consegue fazer um trabalho disso”, destaca o torcedor.

Quem viveu a conquista original, porém, duvida que ela possa se repetir. “A curto e médio prazo, esqueça. Não vai passar da segunda, terceira fase. Os clubes grandes entram na reta final preparados para o objetivo”, afirma Itá.

O capitão, porém, tem convicção, que o maior título de Santa Catarina, vai continuar sendo amarelo, preto e branco. Uma conquista única e inesquecível. “Não acredito que uma equipe pequena de Santa Catarina vai ser campeã da Copa do Brasil de novo. Para mim é bom. Eu fui o único capitão que levantou essa taça. Para o torcedor, para a cidade, é maravilhoso, porque ninguém vai te incomodar. Ninguém vai dizer que é maior que você. Nós somos os maiores. E então isso tudo faz com que as lembranças de um passado não tão distante que está presente no dia a dia nosso, faz com que fiquemos felizes”.

Textos e imagens: Thiago Oliveira e Tiago Monte
Fotos: Angelica Brunatto, Suelen Grimes e Thiago Oliveira
Editor de Arte: João Henrique Brandão